Post de Apoio: Caetano de Costa Alegre – O criador da Negritude em Poesia

A única foto que consegui encontrar do Poeta

Abertura

Olá, meus queridos amigos ouvintes! É com prazer que começo mais um episódio do nosso podcast Poesia de Cozinha, um programa de leitor para leitor, que busca trazer a experiência da descoberta e da exploração de poetas do mundo todo, vistos pelos olhos de um cara comum, sem qualquer pretensão além do deslumbramento!

E pra começarmos esse episódio com o pé direito, vou anunciar nosso poeta escolhido. Essa escolha, é mais que especial, pois, pela primeira vez no Poesia de Cozinha, é um poeta que versa em língua portuguesa! Além disso, durante minha pesquisa, descobri que ele pode ter nascido no mesmo dia que eu, o que deixou o programa com um sabor todo especial.

Estamos falando de Caetano de Costa Alegre, um poeta de São Tomé e Príncipe, que vocês vão ter o prazer de conhecer ao longo desse episódio! Bora lá!

São Tomé e Príncipe, contextualizando

São Tomé e Príncipe é um país Insular localizado no Golfo da Guiné, no Oceano Atlântico, a mais de 300mil metros dos seus vizinhos mais próximos, que são a Guiné Equatorial, o Gabão e Camarões.

Por falar em proximidade, é legal você saber que São Tomé e Príncipe integra a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, uma vez que o Português é seu idioma principal.

A colonização das Ilhas de São Tomé e Príncipe se deu em 1470, quando Portugal estabeleceu um entreposto comercial para lidar com a importação de cativos africanos, destinados às outras colônias para servirem como escravos. Nessa mesma época, eles também introduziram o cultivo de cana-de-açúcar aproveitando-se covardemente da mão de obra escrava disponível no local.

Depois de 490 anos sob o jugo português, os movimentos de Independência fortaleceram-se e em 1972, o Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe surgiu. Em 1975, o MLSTP assumiu o governo do país e obteve a autonomia nacional.

O país é formado por duas ilhas principais, a ilha de São Tomé a ilha do Príncipe, além várias outras ilhotas menores. Sua população se concentra na capital São Tomé.

Economia e Cultura

De acordo com o site do Banco Mundial, a República de São Tomé e Príncipe tem uma economia frágil, altamente vulnerável a interferências estrangeiras. O arquipélago dividido em seis distritos e uma Região Autônoma, o país tem um PIB de aproximadamente 470 milhões.

Seu governo ainda é liderado pelo mesmo partido que conseguiu a independência da metrópole portuguesa graças a acordos políticos, mas, similarmente ao Brasil, eles realizam eleições em outubro desse ano e talvez isso possa mudar em breve.

Metade de sua população vive abaixo da linha de pobreza, sobrevivendo com menos de US$ 1,90 por dia.

Os principais desafios que acometem a república de São Tomé e Príncipe são os elevados custos de exportação, devido à sua insularidade, o que impede o país de diversificar sua economia e torna-o mais vulnerável em suas negociações.

Seu crescimento nas últimas duas décadas, no entanto, foi impulsionado por descobertas de jazidas de petróleo, ajudas externas e por investimentos estrangeiros na área de turismo, que começou a ser mais explorada depois da descoberta do petróleo no país.

Uma playlist especial pra você curtir os Ritmos de São Tomé e Príncipe

A cultura das ilhas é uma mistura bem feita de influências africanas e portuguesas. Eles têm ritmos característicos em São Tomé, como a Ússua e o Socopé. Já Príncipe tem uma batida peculiar chamada DEXA, que é muito gostosa de ouvir e particularmente, me lembrou os cantos de uma festa de Cosme e Damião que eu fui quando era menino, lá no interior da Bahia.

Outra coisa bem interessante da cultura São-Tomense é o Tchiloli, uma espécie de espetáculo musical onde é representada uma história Dramática envolvendo o filho do Imperador Carlos Magno, que assassina um amigo seu, por causa de uma mulher.

Um aspecto legal da música São-Tomense, é que eles têm um padrinho, a banda Leoninos, fundada pelo músico Quintero Aguiar, na década de 1950. Os Leoninos, assim como alguns artistas brasileiros na nossa época da ditadura, enfrentaram censura do governo português por criticarem o sistema colonialista e falar sobre a independência de São Tomé. Apesar de se separarem em 1965, outra banda para motivar a gente desse país incrível, surgia, liderada por Leonel Aguiar, os Úntués, que acrescentavam influências estrangeiras em seu coro por independência.

Primeira Leitura

A Negra

Negra gentil, carvão mimoso e lindo
Donde o diamante sai,
Filha do sol, estrela requeimada,
Pelo calor do Pai,

Encosta o rosto, cândido e formoso,
Aqui no peito meu,
Dorme, donzela, rola abandonada,
Porque te velo eu.

Não chores mais, criança, enxuga o pranto,
Sorri-te para mim,
Deixa-me ver as pérolas brilhantes,
Os dentes de marfim.

No teu divino seio existe oculta
Mal sabes quanta luz,
Que absorve a tua escurecida pele,
Que tanto me seduz.

Eu gosto de te ver a negra e meiga
E acetinada cor,
Porque me lembro, ó Pomba, que és queimada
Pelas chamas do amor;

Que outrora foste neve e amaste um lírio,
Pálida flor do vale,
Fugiu-te o lírio: um triste amor queimou-te
O seio virginal.

Não chores mais, criança, a quem eu amo,
Ó lindo querubim,
O amor é como a rosa, porque vive
No campo, ou no jardim.

Tu tens o meu amor ardente, e basta
Para seres feliz;
Ama a violeta que a violeta adora-te
Esquece a flor-de-lis.

Quem foi Caetano de Costa Alegre

Sendo o primeiro escritor nascido em São Tomé e Príncipe a figurar nos anais da literatura Portuguesa, que era a metrópole das ilhas na época, Caetano de Costa Alegre foi um homem definido por muitos títulos e de imensa sede de conhecimento. Chamavam-no de Poeta da Cor Dolorosa e Criador da Negritude em Poesia.

Falar de seu trabalho, é antes de tudo, falar de imigração e deslocamento, de deixar sua terra e se sentir estranho em uma metrópole que não o acolhe. Falar dele, para mim, é uma tarefa interessante e pessoal demais.

Nascido no ano de 1864, Caetano morreu precocemente em Portugal, aos 26 anos de idade, enquanto cursava medicina na metrópole. Sua morte, no entanto, não foi o fim de sua história, uma vez que seu amigo Artur da Cruz Magalhães, se encarregou de reunir toda sua poesia e publicá-la.

Sendo considerado como um “Romântico Tardio”, de acordo com o trabalho da Dra. em Letras Vernáculas e Literaturas Portuguesa e Africanas, pela UFRJ, Naduska Mário Pereira e com críticos das literaturas africanas de expressão portuguesa, o trabalho de Caetano é recheado do desejo de acolhimento e pertencimento de um imigrante vivendo em uma terra que não o acolhe por inteiro, nem o trata como igual.

Embora tenha enfrentado preconceito, privações e outras demonstrações de desafeto em uma metrópole que o recebe, mas não acolhe, Caetano soube pegar todos esses sentimentos e transformá-los em belos versos que exaltam a cultura de sua terra, o amor de seu eu lírico e a beleza das mulheres negras.

Isso é muito importante na obra dele, pois vemos que em momento nenhum ele abandonou sua identidade ou buscou criar dicotomias que reforçassem de forma negativa a relação entre negros e brancos, ao contrário, ele buscava sentir tudo o que podia, mesmo tendo sua cor como um estigma e mesmo sendo rejeitado por ser o que era. Seus poemas são uma exaltação de sua identidade e uma demonstração da vitória e do orgulho de ser quem é, mesmo quando toda uma sociedade está contra você, por um motivo tão banal.

Arroz de Milho

A receita que eu escolhi para esse programa é uma receita que, nas palavras da chef Anilta Santo Fernandes, tem sabor de luta, de batalha e de sobrevivência. É uma receita que sua mãe fazia para vender em seu tempo livre e complementar a renda.

Vamos aprender com ela?

Olha que linda a Apresentação dela, a minha não chegou nem perto!

Ah, detalhe, eu usei milho branco, por que não achei o milho amarelo em tempo, mas ficou delicioso igual, olha as fotos da minha versão

Segunda Leitura

Aurora

Tu tens horror de mim, bem sei, Aurora,
Tu és dia, eu sou a noite espessa,
Onde eu acabo é que o teu ser começa.
Não amas! … Flor, que está minha alma adora.

És a luz, eu a sombra pavorosa,
Eu sou a tua antítese frisante,
Mais não estranhes que te aspire formosa,
Do carvão sai o brilho do diamante.

Olha que esta paixão cruel, ardente,
Na resistência cresce, qual torrente;
É a paixão fatal que vem da sorte,

É a paixão selvática de fera,
É a paixão do peito da pantera,
Que me obriga a dizer-te “amor ou morrer”!

Encerramento

Eu não poderia encerrar esse episódio sem agradecer à Dra. Naduska Mário Pereira, por ter sido tão prestativa e acessível, sem ela esse episódio não seria possível.

Descobrir o trabalho do Caetano foi bem simbólico para mim, uma vez que também vivi migrando por um tempo, até conseguir me encontrar onde estou agora e descobri minha felicidade por aqui, embora, no começo tenha sido bem difícil.

Explorar São Tomé e Príncipe, mesmo que à distância, foi uma experiência maravilhosa e um dia, caso eu consiga bancar todas as viagens internacionais que quero fazer, com certeza será um dos primeiros destinos que vou visitar.

As músicas que você ouviu durante esse episódio são as seguintes:
Flacon: Os Quibanzas;
Tó: Dexa da Ilha do Principe;
Não chora não: Bulawe Ribeira Funda
Você: África Verde

É isso meus amigos, fiquem bem, fiquem em paz, lembrem-se de votar esse ano e leiam sempre, pois o conhecimento é a nossa única arma contra a opressão, o colonialismo, as ditaduras e as desinformações.
Até o próximo programa!

Fontes

A principal fonte deste episódio, foi o artigo publicado pela Professora Doutora Naduska Mário Palmeira, na Revista Crioula, de número 20, no 2° Semestre do ano de 2017: DOI: 10.11606/issn.1981-7169.crioula.2017.137532

Outras Fontes de Pesquisa:

Brasil Escola
Banco Mundial
Portal São Francisco
Afrolink
Deutsche Welle

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