Post de Apoio: Taras Shevchenko – Um visionário da Ucrânia moderna.

Uma representação em preto e branco do poeta ucraniano Taras Shevchenko

Abertura

Olá, meus queridos amigos ouvintes! Antes de mais nada, desculpem pela demora! Está pra começar a minha semana de provas e tive um processo de adaptação ao trabalho novo, então muita coisa aconteceu nessas últimas três semanas.

Mas, sem mais delongas, vamos ao que interessa!

Sejam bem vindo ao Poesia de Cozinha, o podcast feito de leitor para leitor, sem a pretensão de ser técnico, pedante ou acadêmico demais, afinal, como já dizia Belchior, eu sou como você, que me ouve agora.

Como você já deve ter visto no título, esse episódio é sobre o Poeta Ucraniano Taras Shevchenko e a receita para essa nossa viagem ficou de lamber os beiços!

Vamos ao episódio.

Ucrânia, Ontem e Hoje

Um antigo mapa do Estado Feudal de Rus

A Ucrânia nasceu quase ao mesmo tempo que sua maior rival, a Rússia, como parte de um grande estado medieval conhecido como Rus de Kiev pela comunidade historiadora. Esse estado se formou pois o povo eslavo que se concentrava na região se autodenominava “Rus”. Isso já nos mostra que os laços da Ucrânia com seus vizinhos eram bem fortes desde sua idealização.

A fé majoritária na região era a Cristã Ortodoxa e foi oficializada em 988 por Vladimir 1º, conhecido também como São Vladimir Svyatoslavich “O grande” de Kiev. Ele também consolidou o reino Rus num território que ia de Belarus, passava pela Rússia, Ucrânia e se estendia até o Mar Báltico.

Dentro desse grande império, surgiram alguns dialetos praticados pela população e com a evolução natural dessas formas de comunicação, surgiram as línguas Ucraniana, Bielorussa e Russa. Inclusive é por conta desse passado compartilhado, que alguns russos clamam a integração entre os dois países, mesmo que à força.

Isso não poderia ser menos verdade, uma vez que a identidade ucraniana sempre foi muito forte e sua resistência ao processo de “russificação” idealizado por pessoas como Stálin e Putin sempre foi muito forte e pontual.

Segundo um professor de estudos ucranianos da College London, o Andrew Wilson, a Ucrânia precisa ser vista como um quebra-cabeças dinâmico, que tem várias peças distintas e não podem ser analisadas apenas como uma unidade estática.

Uma cisão marcante entre os Russos e Ucranianos, aconteceu no século 14, quando o território acabou sendo dividido entre o Grão Principado de Moscou e o Grão Ducado da Lituânia, que mais tarde se juntou à Polônia, aproveitando-se do declínio do poderio Mongol para avançar sobre mais territórios e consolidar seu poder.

Kiev e as áreas adjacentes ficaram sob o domínio da comunidade Polaco-Lituana e isso contribui para que a influência ocidental crescesse sob a comunidade ucraniana, dando a eles uma diferença significativa de paradigma com os seus vizinhos russos.

Todo esse contexto histórico de aproximação com o Ocidente e afastamento da influência forçada Russa, nos leva ao ponto atual, onde os Ucranianos tentavam uma entrada na OTAN e acabaram entrando em uma guerra que já havia sido prevista muito antes pelos especialistas, tendo sido essa vontade de fazer parte da OTAN, o estopim que os russos precisavam, para mais uma vez tentar dominar a região e intensificar sua influência sob o antigo estado da União Soviética.

Economia e Cultura

A economia Ucraniana gira em torno principalmente da agricultura e da pecuária. Planícies extensas situadas próximo a Kirovgrad, tem um solo negro característico chamado de chernozem, que tem muita riqueza produtiva e alavanca as culturas preferidas do país como milho, trigo, batata e semente de girassol.

Além das criações bovinas convencionais, a Ucrânia se destacou como um dos maiores produtores mundiais de mel, leite bovino entre outras particularidades desse setor.

Sua Indústria estava posicionada na quinquagésima nona posição do ranking das mais valiosas de acordo com uma lista do Banco Mundial de 2019. Nesse mesmo ano, eles também foram ranqueados como o quadragésimo sexto maior produtor de veículos do mundo e décimo terceiro maior produtor de aço, mas seu destaque mesmo vem como o maior produtor de óleo de girassol no mundo.

São ricos em recursos energéticos e minerais, tendo jazidas de ferro, manganês, titânio e Urânio.

Sua cultura traz à tona muitos elementos dos povos eslavos que habitavam boa parte do Leste Europeu. São reconhecidos internacionalmente por suas belas danças típicas e vestimentas coloridas cheias de vida.

Eles têm grupos folclóricos que são especializados em danças e costumam usar coroas de flores para esse tipo de expressão artística. O Ballet Nacional é uma das principais companhias de dança do mundo.

Trabalhos manuais são tradicionais para eles. Gostam muito de pinturas, bordados e trabalhos com madeira. Você pode encontrar ovos pintados conhecidos como pysanka e bonecas de madeira conhecidas como babuskas.

Em relação aos hábitos alimentares é comum encontrar receitas com batatas, beterrabas e repolho.

O principal esporte praticado no país é o futebol.

Sua bandeira é formada por duas faixas coloridas, uma azul e outra amarela, representando o céu azul sobre os campos de trigo que são um dos orgulhos da nação.

E aqui tempos uma playlist muito boa pra você curtir um pouco da música ucraniana.

Primeira Leitura

Nessa primeira leitura, vamos conhecer o poema “O sol se põe”, escrito por Taras Shevchenko em 1847. A tradução é de Ludmila Szymanskyj.

O sol se põe, colinas negrejam
A avezinha se cala, o campo se aquieta
Homens contentes fruem repouso
Mas eu só miro… e voo com alma
Ao pomar escuro na minha Ucraína
Voo com meus pensamentos,
E assim a alma se acalma.
Negrejem campos, matas e montes
No céu profundo nasce uma estrela.
Oh estrela, estrelinha! – e lágrimas rolam.
Tu já surgiste na minha Ucraína?
Será que olhos amados
No céu te buscam?
Ou já esqueceram?
Se já esqueceram, durmam tranquilos
E com meu destino, não se perturbem.

É interessante que esse poema foi escrito enquanto o poeta estava na Rússia, como servo de um aristocrata local, então a carga de saudade presente nele é bem densa, pude sentir a tristeza só de ler os versos aqui pra vocês. É um poema bem pesado.

Quem foi Taras Shevchenko

Taras Shevtchenko nasceu em Moryntsi na Ucrânia, então parte do Império Russo no dia 9 de março de 1814 e faleceu em 10 de março de 1861, aos 47 anos na cidade de São Petersburgo, também no Império Russo.

Durante sua vida, ele foi um poeta, pintor, desenhista, artista e humanista. Fundou o movimento literário moderno da Ucrânia e foi um dos visionários da Ucrânia moderna. Sua maior obra foi a coletânea poética Kobzar.

Um jovem e imberbe Taras Shevchenko

Seu nascimento ocorreu em uma família de servos, como já dito, na aldeia de Moryntsi, província de Kiev. Ele ficou órfão aos onze anos e foi levado à servidão, tornando-se propriedade do aristocrata russo Pavel Engelhardt, a quem ele acompanhou para Vilnius e depois para São Petersburgo.

Sua libertação da servidão ocorreu graças ao pintor e professor Karl Briullov, que doou uma pintura sua para arrecadar dinheiro e comprar a liberdade de Taras. Ele foi liberto em 5 de maio de 1838.

No mesmo ano de sua libertação, ele foi aceito para estudar na Academia de artes, na aula do mesmo professor que reconheceu seu talento e o ajudou a se libertar da servidão. No ano seguinte, ele recebeu uma medalha de prata por uma de suas pinturas e no ano de 1840, publicou a coletânea poética que o imortalizaria na literatura Ucraniana, a Kobzar. Em 1841 publicou o poema épico Haydamaky e em 1842 escreveu um drama chamado Nazar Stodolya.

Em 1847, Shevchenko foi preso no processo da Irmandade dos Santos Cirilo e Metódio, uma organização política que visava liberalizar o Império Russo e transformá-lo numa federação de estados eslavos. Provavelmente ele nem era membro efetivo dessa organização, pois sua participação não foi provada, mas na batida policial que o prendeu, encontraram com ele um poema chamado “Sonho” em que ele atacava a monarquia e satirizava o Czar e sua esposa.

Ele foi enviado para uma prisão nos montes Urais e Nicolau ainda acrescentou uma proibição de Ler e Escrever ao seu castigo. Depois de um tempo, ele obteve o perdão real, mas foi proibido de viver em São Petersburgo e ordenado a viver em NijniNovgorod. Só em 1859, obteve permissão para visitar sua terra natal.

Após dedicar seus últimos anos à poesia, pintura, gravuras e revisão do seu trabalho anterior, Shevchenko faleceu devido aos anos intensos que viveu no exílio onde sua saúde foi minada pelas péssimas condições depreendidas aos prisioneiros e exilados. Foi enterrado no cemitério Smolensk, em São Petersburgo, porém, como havia desejado em seu poema “Testamento”, seus restos mortais foram trasladados para um cemitério nos arredores da cidade de Kaniv, na Ucrânia.

Receita: Deruny

A receita desse episódio é simples e prática de se fazer. Aprendi no site do Edu Guedes e você pode aprender por lá também.

Quer saber os ingredientes? Então vamos lá:

  • 5 batatas médias bem lavadas e raladas na parte dos furos menores
  • 1 colher (sopa) de cream cheese
  • 2 colheres (sopa) de farinha de trigo
  • 1 cebola roxa ralada no furo menor
  • Sal e pimenta-do-reino
  • Óleo para fritar 

O preparo é simples, primeiro vamos ralar as batatas e a cebola, escorrer a água que sai delas, acrescentar a farinha, o cream cheese, sal e pimenta-do-reino e misturar bem.

Depois vamos aquecer o óleo numa frigideira, não muito e, com uma colher de sopa colocar as panquecas para fritar. Dá uma apertadinha na massa pra ficar com cara de mini panqueca. Se tiver uma chapa, faz na chapa que fica ainda melhor, só não esqueça de untar a chapa. Deixe dourar dos dois lados e depois coloque pra secar no papel toalha.

Se quiser fazer um molinho, misture a olho: Coalhada, iogurte, sal e raspas de limão. Finalize com cebolinha francesa picada ou com a erva que escolher.

Olha só como ficou:

Segunda Leitura

“O poema foi escrito em 1845 e essa tradução poética foi feita em 8 de setembro de 1975. Ficam aqui algumas observações. Esta tradução poética faz parte de uma série de trabalhos feitos pela estudiosa Lydia Dniprovey, muitos deles ainda escritos à mão e alguns inclusive sem referências (como é o caso deste poema, do qual não tenho a referência do original; vale lembrar que muitos livros que os ucranianos tinham acesso aqui no Brasil durante todo o período da União Soviética chegavam por dois caminhos: ou tinham vindo na bagagem dos imigrantes ou vinham de outros países, como Estados Unidos e Canadá, o que resultava, muitas vezes, em diferenças entre originais).”

Texto integral pode ser lido em: Minha Ucrania

Sepultai-me nas estepes
Na amplidão de uma colina…
Na fagueira e imaculada,
Bem-amada, Ucraína:
De onde eu ouço o retumbante,
Rio Dnieper a bramir,
Redimindo as verdes plagas,
Entre as vagas do porvir;
Rechaçando da Ucraína,
O mau sangue a rebramar;
Dos covardes, dos profanos,
Dos tiranos, para o mar.
Só então eu subirei,
Deixarei os mananciais,
E aureoladas cordilheiras,
Orarei, e finalmente…
Ao Senhor, e em Seu apreço,
Na harmonia de uma aurora,
Que até “agora”, desconheço!
Sepultai-me, e libertai-vos,
Dos grilhões, da adversidade,
Do inimigo, do algoz,
Na aurivoz, da liberdade!
Com o mau sangue se extinguindo,
Proclamai a liderança!
Com lauréis imorredouros,
Com os louros, da bonança.
E nesta imensa família
Livre, nova e meritória,
Consagrai-me um instante,
Mas tocante… a memória!

Encerramento

E aí pessoal, o que acharam desse episódio? Eu tentei não focar muito nos assuntos mais atuais que envolvem a guerra e tudo o mais, mesmo por que o intuito do podcast não é esse.

A impressão que tive, ao visitar brevemente a cultura Ucraniana através dessa pesquisa e do sabor das Derunys é que o país é extremamente autêntico, vivo e resistente.

O que posso dizer sobre tudo que aprendi e o que está acontecendo é que essa não foi a primeira vez e talvez não seja a última que alguém tenta apagar a identidade e diminuir o território e o orgulho ucranianos. Torço para que eles tenham sucesso na defesa do seu lar e que essa guerra termine logo.

Mais uma vez, me desculpem pelo atraso! Vejo vocês em breve, no “Causos de varanda” especial sobre a Ucrânia. Fiquem bem, leiam sempre e paz na terra, aos homens de boa vontade!

Fontes

BBC

Wikipedia

Mundo Educação

Portal Minha Ucrania

Músicas presentes no episódio

Nos Montes Cárpatos

Old Ukrainian Folk Song

Ukrainian Patriotic Folk Song

Ei Falcões!

Kukushka

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