Lino Guedes: Jornalismo, Ativismo e Poesia

Lino Guedes: Foto obtida no acervo da Associação de Notários e Registradores do estado de São Paulo, ANOREG

Olá, meus queridos amigos ouvintes! Sejam bem vindos ao Poesia de Cozinha, o podcast feito de leitor para leitor, sem a pretensão de ser técnico, pedante ou acadêmico demais, afinal, como já dizia Belchior, eu sou como você, que me ouve agora.

Vamos começar essa edição com alguns recadinhos importantes:

Infelizmente os meses de julho e agosto foram super corridos para mim e não tivemos episódios nesse período, mas isso não significa que o podcast acabou, a diferença é que agora eu vou ter de publicá-lo com intervalos irregulares.

Agora, falando do nosso episódio, o que eu tenho para começar é que, hoje, dia 06 de Setembro, nada melhor pra voltar à ativa, do que fazer um episódio falando de Brasil, certo? Então pra celebrar a nossa independência e trazer um trabalho legal sobre nosso país, vamos falar sobre Lino Guedes, um poeta paulista, da cidade de Socorro.

Eu espero que gostem!

O Brasil de Lino Guedes

É estranho fazer um episódio sobre o Brasil e apresentar o país aqui pra vocês, especialmente por que a maioria dos que ouvem o programa são nativos, certo? Então, vou tentar algo diferente, vamos contextualizar o Brasil na época de vida do poeta.

Em 1897, quando nasceu Lino Guedes, o país era uma república jovem, governada por Prudente de Moraes, o terceiro presidente daquela que ficaria conhecida com Primeira República. Nesse período, foram resolvidas várias questões diplomáticas que remontavam ainda aos tempos do Império,,com a Inglaterra, França e Portugal. Também foram traçados novos planos econômicos e uma tentativa de combate à inflação foi feita. No entanto, a dívida externa do país cresceu assustadoramente, devido á política do encilhamento proposta por Rui Barbosa em 1890.

Se você não sabe o que é encilhamento, bem, basicamente é imprimir dinheiro e entregá-lo a população. Com a alta demanda de papel moeda, mas a baixa oferta de recursos que representem esse crescimento de valor, a economia quebra. Prudente, o Presidente, para combater essa loucura, aumentou nossa dívida e contraiu empréstimos, contendo o monstro criado por Rui.

Foi também nesse período, que aconteceu a guerra de Canudos, que estava quase no finalzinho quando nosso poeta do episódio nasceu. Prudente conduziu a finalização dessa guerra e também da Revolução Federalista, ganhando a alcunha de Pacificador da república.

É engraçado que em todo esse período, vemos um Brasil formando sua identidade, criando as raízes para o que viria a ser hoje.

Caso você tenha interesse nas políticas de impressão de dinheiro do Rui Barbosa, ou na guerra de Canudos, por exemplo, eu recomendo fortemente que busque sobre isso no Google ou que pegue o livro “OS Sertões” para entender melhor sobre o contexto histórico, vale muito a pena pois o nosso país tem uma história riquíssima nesse período.

Agora, avançando um pouco mais no tempo, quando Lino já estava mais crescido e atuando na imprensa negra, nós tivemos o contexto da Semana de Arte Moderna de 1922, outro evento importantíssimo para o nosso país, que ecoou tanto aqui, quanto no exterior.

Em 1929 o país enfrentava, como todo o mundo, a crise gigantesca desse ano e o governo, para evitar uma desvalorização tremenda do café, que na época era um dos nossos principais produtos de exportação, comprou e queimou inúmeras toneladas do produto, diminuindo a oferta e mantendo o preço equilibrado. Embora pareça injusto com a população e até mesmo com a terra, foi graças a essa crise e a queima do café, que muitos cafeicultores voltaram seus olhos para outras indústrias e alavancaram a revolução fabril brasileira.

Outro fato indispensável de se comentar sobre o período, foi a participação Brasileira na Segunda Guerra mundial, que aconteceu em paralelo à vida do nosso poeta selecionado. Quem não estudou sobre isso, ou ouviu os relatos da nossa famosa batalha em Monte Castelo e do orgulho que alguns italianos sentem pelos nossos pracinhas, por terem resgatado as aldeias do jugo alemão?

Muita coisa aconteceu durante a vida de Lino Guedes e o Brasil saiu de uma república jovem, para uma potência econômica na América do Sul, construindo ainda mais nossa identidade e reforçando nossa soberania.

Primeira Leitura

Esse primeiro poema, se chama “Negrinha” e é extremamente importante para entendermos a obra de Lino Guedes. O poema foi feito depois que o autor leu um conto que tem o mesmo título, escrito por Monteiro Lobato. Enquanto poeta preto e ativista, Lino deve ter ficado indignado com aquela sensação que o conto lhe causou e foi então que saiu esse poema.

Primeiro vamos ler o conto, depois o poema;

NegrinhaConto de Monteiro Lobato

Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados.

Nascera na senzala, de mãe escrava, e seus primeiros anos vivera-os pelos cantos escuros da cozinha, sobre velha esteira e trapos imundos. Sempre escondida, que a patroa não gostava de crianças.

Excelente senhora, a patroa. Gorda, rica, dona do mundo, amimada dos padres, com lugar certo na igreja e camarote de luxo reservado no céu. Entaladas as banhas no trono (uma cadeira de balanço na sala de jantar), ali bordava, recebia as amigas e o vigário, dando audiências, discutindo o tempo. Uma virtuosa senhora em suma — “dama de grandes virtudes apostólicas, esteio da religião e da moral”, dizia o reverendo.

Ótima, a dona Inácia.

Mas não admitia choro de criança. Ai! Punha-lhe os nervos em carne viva. Viúva sem filhos, não a calejara o choro da carne de sua carne, e por isso não suportava o choro da carne alheia. Assim, mal vagia, longe, na cozinha, a triste criança, gritava logo nervosa:

— Quem é a peste que está chorando aí?

Quem havia de ser? A pia de lavar pratos? O pilão? O forno? A mãe da criminosa abafava a boquinha da filha e afastava-se com ela para os fundos do quintal, torcendo-lhe em caminho beliscões de desespero.

— Cale a boca, diabo!

No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer…

Assim cresceu Negrinha — magra, atrofiada, com os olhos eternamente assustados. Órfã aos quatro anos, por ali ficou feito gato sem dono, levada a pontapés. Não compreendia a idéia dos grandes. Batiam-lhe sempre, por ação ou omissão. A mesma coisa, o mesmo ato, a mesma palavra provocava ora risadas, ora castigos. Aprendeu a andar, mas quase não andava. Com pretextos de que às soltas reinaria no quintal, estragando as plantas, a boa senhora punha-a na sala, ao pé de si, num desvão da porta.

— Sentadinha aí, e bico, hein?

Negrinha imobilizava-se no canto, horas e horas.

— Braços cruzados, já, diabo!

Cruzava os bracinhos a tremer, sempre com o susto nos olhos. E o tempo corria. E o relógio batia uma, duas, três, quatro, cinco horas — um cuco tão engraçadinho! Era seu divertimento vê-lo abrir a janela e cantar as horas com a bocarra vermelha, arrufando as asas. Sorria-se então por dentro, feliz um instante.

Puseram-na depois a fazer crochê, e as horas se lhe iam a espichar trancinhas sem fim.

Que idéia faria de si essa criança que nunca ouvira uma palavra de carinho? Pestinha, diabo, coruja, barata descascada, bruxa, pata-choca, pinto gorado, mosca-morta, sujeira, bisca, trapo, cachorrinha, coisa-ruim, lixo — não tinha conta o número de apelidos com que a mimoseavam. Tempo houve em que foi a bubônica. A epidemia andava na berra, como a grande novidade, e Negrinha viu-se logo apelidada assim — por sinal que achou linda a palavra. Perceberam-no e suprimiram-na da lista. Estava escrito que não teria um gostinho só na vida — nem esse de personalizar a peste…

O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam nele os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo. Sua pobre carne exercia para os cascudos, cocres e beliscões a mesma atração que o ímã exerce para o aço. Mãos em cujos nós de dedos comichasse um cocre, era mão que se descarregaria dos fluidos em sua cabeça. De passagem. Coisa de rir e ver a careta…

A excelente dona Inácia era mestra na arte de judiar de crianças. Vinha da escravidão, fora senhora de escravos — e daquelas ferozes, amigas de ouvir cantar o bolo e estalar o bacalhau. Nunca se afizera ao regime novo — essa indecência de negro igual a branco e qualquer coisinha: a polícia! “Qualquer coisinha”: uma mucama assada ao forno porque se engraçou dela o senhor; uma novena de relho porque disse: “Como é ruim, a sinhá!”…

O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis. Inocente derivativo:

— Ai! Como alivia a gente uma boa roda de cocres bem fincados!…

Tinha de contentar-se com isso, judiaria miúda, os níqueis da crueldade. Cocres: mão fechada com raiva e nós de dedos que cantam no coco do paciente. Puxões de orelha: o torcido, de despegar a concha (bom! bom! bom! gostoso de dar) e o a duas mãos, o sacudido. A gama inteira dos beliscões: do miudinho, com a ponta da unha, à torcida do umbigo, equivalente ao puxão de orelha. A esfregadela: roda de tapas, cascudos, pontapés e safanões a uma — divertidíssimo! A vara de marmelo, flexível, cortante: para “doer fino” nada melhor!

Era pouco, mas antes isso do que nada. Lá de quando em quando vinha um castigo maior para desobstruir o fígado e matar as saudades do bom tempo. Foi assim com aquela história do ovo quente.

Não sabem! Ora! Uma criada nova furtara do prato de Negrinha — coisa de rir — um pedacinho de carne que ela vinha guardando para o fim. A criança não sofreou a revolta — atirou-lhe um dos nomes com que a mimoseavam todos os dias.

— “Peste?” Espere aí! Você vai ver quem é peste — e foi contar o caso à patroa.

Dona Inácia estava azeda, necessitadíssima de derivativos. Sua cara iluminou-se.

— Eu curo ela! — disse, e desentalando do trono as banhas foi para a cozinha, qual perua choca, a rufar as saias.

— Traga um ovo.

Veio o ovo. Dona Inácia mesmo pô-lo na água a ferver; e de mãos à cinta, gozando-se na prelibação da tortura, ficou de pé uns minutos, à espera. Seus olhos contentes envolviam a mísera criança que, encolhidinha a um canto, aguardava trêmula alguma coisa de nunca visto. Quando o ovo chegou a ponto, a boa senhora chamou:

— Venha cá!

Negrinha aproximou-se.

— Abra a boca!

Negrinha abriu aboca, como o cuco, e fechou os olhos. A patroa, então, com uma colher, tirou da água “pulando” o ovo e zás! na boca da pequena. E antes que o urro de dor saísse, suas mãos amordaçaram-na até que o ovo arrefecesse. Negrinha urrou surdamente, pelo nariz. Esperneou. Mas só. Nem os vizinhos chegaram a perceber aquilo. Depois:

— Diga nomes feios aos mais velhos outra vez, ouviu, peste?

E a virtuosa dama voltou contente da vida para o trono, a fim de receber o vigário que chegava.

— Ah, monsenhor! Não se pode ser boa nesta vida… Estou criando aquela pobre órfã, filha da Cesária — mas que trabalheira me dá!

— A caridade é a mais bela das virtudes cristas, minha senhora —murmurou o padre.

— Sim, mas cansa…

— Quem dá aos pobres empresta a Deus.

A boa senhora suspirou resignadamente.

— Inda é o que vale…

Certo dezembro vieram passar as férias com Santa Inácia duas sobrinhas suas, pequenotas, lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas.

Do seu canto na sala do trono, Negrinha viu-as irromperem pela casa como dois anjos do céu — alegres, pulando e rindo com a vivacidade de cachorrinhos novos. Negrinha olhou imediatamente para a senhora, certa de vê-la armada para desferir contra os anjos invasores o raio dum castigo tremendo.

Mas abriu a boca: a sinhá ria-se também… Quê? Pois não era crime brincar? Estaria tudo mudado — e findo o seu inferno — e aberto o céu? No enlevo da doce ilusão, Negrinha levantou-se e veio para a festa infantil, fascinada pela alegria dos anjos.

Mas a dura lição da desigualdade humana lhe chicoteou a alma. Beliscão no umbigo, e nos ouvidos, o som cruel de todos os dias: “Já para o seu lugar, pestinha! Não se enxerga”?

Com lágrimas dolorosas, menos de dor física que de angústia moral —sofrimento novo que se vinha acrescer aos já conhecidos — a triste criança encorujou-se no cantinho de sempre.

— Quem é, titia? — perguntou uma das meninas, curiosa.

— Quem há de ser? — disse a tia, num suspiro de vítima. — Uma caridade minha. Não me corrijo, vivo criando essas pobres de Deus… Uma órfã. Mas brinquem, filhinhas, a casa é grande, brinquem por aí afora.

— Brinquem! Brincar! Como seria bom brincar! — refletiu com suas lágrimas, no canto, a dolorosa martirzinha, que até ali só brincara em imaginação com o cuco.

Chegaram as malas e logo:

— Meus brinquedos! — reclamaram as duas meninas.

Uma criada abriu-as e tirou os brinquedos.

Que maravilha! Um cavalo de pau!… Negrinha arregalava os olhos. Nunca imaginara coisa assim tão galante. Um cavalinho! E mais… Que é aquilo? Uma criancinha de cabelos amarelos… que falava “mamã”… que dormia…

Era de êxtase o olhar de Negrinha. Nunca vira uma boneca e nem sequer sabia o nome desse brinquedo. Mas compreendeu que era uma criança artificial.

— É feita?… — perguntou, extasiada.

E dominada pelo enlevo, num momento em que a senhora saiu da sala a providenciar sobre a arrumação das meninas, Negrinha esqueceu o beliscão,o ovo quente, tudo, e aproximou-se da criatura de louça. Olhou-a com assombrado encanto, sem jeito, sem ânimo de pegá-la.

As meninas admiraram-se daquilo.

— Nunca viu boneca?

— Boneca? — repetiu Negrinha. — Chama-se Boneca?

Riram-se as fidalgas de tanta ingenuidade.

— Como é boba! — disseram. — E você como se chama?

— Negrinha.

As meninas novamente torceram-se de riso; mas vendo que o êxtase da bobinha perdurava, disseram, apresentando-lhe a boneca:

— Pegue!

Negrinha olhou para os lados, ressabiada, como coração aos pinotes. Que ventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E muito sem jeito, como quem pega o Senhor menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta. Fora de si, literalmente… era como se penetrara no céu e os anjos a rodeassem, e um filhinho de anjo lhe tivesse vindo adormecer ao colo. Tamanho foi o seu enlevo que não viu chegar a patroa, já de volta. Dona Inácia entreparou, feroz, e esteve uns instantes assim, apreciando a cena.

Mas era tal a alegria das hóspedes ante a surpresa extática de Negrinha, e tão grande a força irradiante da felicidade desta, que o seu duro coração afinal bambeou. E pela primeira vez na vida foi mulher. Apiedou-se.

Ao percebê-la na sala Negrinha havia tremido, passando-lhe num relance pela cabeça a imagem do ovo quente e hipóteses de castigos ainda piores. E incoercíveis lágrimas de pavor assomaram-lhe aos olhos.

Falhou tudo isso, porém. O que sobreveio foi a coisa mais inesperada do mundo — estas palavras, as primeiras que ela ouviu, doces, na vida:

— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?

Negrinha ergueu os olhos para a patroa, olhos ainda de susto e terror. Mas não viu mais a fera antiga. Compreendeu vagamente e sorriu.

Se alguma vez a gratidão sorriu na vida, foi naquela surrada carinha…

Varia a pele, a condição, mas a alma da criança é a mesma — na princesinha e na mendiga. E para ambos é a boneca o supremo enlevo. Dá a natureza dois momentos divinos à vida da mulher: o momento da boneca — preparatório —, e o momento dos filhos — definitivo. Depois disso, está extinta a mulher.

Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz. Sentiu-se elevada à altura de ente humano. Cessara de ser coisa — e doravante ser-lhe-ia impossível viver a vida de coisa. Se não era coisa! Se sentia! Se vibrava!

Assim foi — e essa consciência a matou.

Terminadas as férias, partiram as meninas levando consigo a boneca, e a casa voltou ao ramerrão habitual. Só não voltou a si Negrinha. Sentia-se outra, inteiramente transformada.

Dona Inácia, pensativa, já a não atazanava tanto, e na cozinha uma criada nova, boa de coração, amenizava-lhe a vida.

Negrinha, não obstante, caíra numa tristeza infinita. Mal comia e perdera a expressão de susto que tinha nos olhos. Trazia-os agora nostálgicos, cismarentos.

Aquele dezembro de férias, luminosa rajada de céu trevas adentro do seu doloroso inferno, envenenara-a.

Brincara ao sol, no jardim. Brincara!… Acalentara, dias seguidos, a linda boneca loura, tão boa, tão quieta, a dizer mamã, a cerrar os olhos para dormir. Vivera realizando sonhos da imaginação. Desabrochara-se de alma.

Morreu na esteirinha rota, abandonada de todos, como um gato sem dono. Jamais, entretanto, ninguém morreu com maior beleza. O delírio rodeou-a de bonecas, todas louras, de olhos azuis. E de anjos… E bonecas e anjos remoinhavam-lhe em torno, numa farândola do céu. Sentia-se agarrada por aquelas mãozinhas de louça — abraçada, rodopiada.

Veio a tontura; uma névoa envolveu tudo. E tudo regirou em seguida, confusamente, num disco. Ressoaram vozes apagadas, longe, e pela última vez o cuco lhe apareceu de boca aberta.

Mas, imóvel, sem rufar as asas.

Foi-se apagando. O vermelho da goela desmaiou…

E tudo se esvaiu em trevas.

Depois, vala comum. A terra papou com indiferença aquela carnezinha de terceira — uma miséria, trinta quilos mal pesados…

E de Negrinha ficaram no mundo apenas duas impressões. Uma cômica, na memória das meninas ricas.

— “Lembras-te daquela bobinha da titia, que nunca vira boneca?”

Outra de saudade, no nó dos dedos de dona Inácia.

— “Como era boa para um cocre!…”

— “Como era boa para um cocre!…”

Negrinha – Poema de Lino Guedes

Li um conto de Lobato
Que muito me entristeceu…
Negrinha, remanescente
Da era triste em que viveu
A pátria amada, que nunca
Um carinho mereceu

Via com notada inveja,
A criançada que brincava,
E se lhe dava por troça
Um boneco, o segurava
Com certo medo, e com o espanto
Nos grandes olhos o olhava.

Esse conto tem um pouco
Do viver desventuroso
Meu. Deus é pai, porém, quando
Num abraço afetuso
Prendo a Dictinha, duvido,
Que seja tão generoso!…

(Dictinha, 1938)

Interessante como, com versos simples, consegue-se captar a profunda impressão negativa que a discriminação deixa na gente. É triste que ainda hoje, tenhamos que lidar com comportamentos assim, num país tão plural quanto o nosso.

Quem foi Lino Guedes

Lino Pinto Guedes é natural da cidade de Socorro-SP. Quanto à data de seu nascimento, há controvérsia entre as fontes consultadas. Para Raimundo de Menezes (1969), Zilá Bernd (1992), Eduardo de Oliveira (1998) e Afrânio Coutinho (2001), Guedes teria nascido em 23/07/1906, informação também existente no catálogo da Biblioteca Mário de Andrade. Mas para Oswaldo de Camargo (1987), o autor nasceu em 24/06/1897, hipótese confirmada em pesquisas mais recentes (Toller, 2011). Seus pais foram José Pinto Guedes e Benedita Eugênia Guedes ambos ex-escravizados.

Aprendeu as primeiras letras em sua cidade de origem indo depois estudar em Campinas-SP, onde se diplomou pela Escola Normal Antônio Álvares. Desde muito jovem começa a se interessar pelo jornalismo, escrevendo para o Diário do Povo e o Correio Popular. Poeta, contista, romancista, ensaísta, biógrafo e jornalista, colaborou ainda em vários jornais e revistas, entre eles: Jornal do Comércio, O Combate, A Razão, São Paulo-Jornal, Correio de Campinas, Correio Paulistano, Folha da Noite e Diário de São Paulo, exercendo neste último, a função de chefe de revisão. Foi redator da Agência Noticiosa Sul-Americana. Foi membro da Sociedade Paulista de Escritores.

Na imprensa negra, atuou como editor-chefe do semanário Getulino, entre 1923 e 1924, autointitulado “órgão de defesa dos homens pretos”, que teve como secretário-geral o também poeta Gervásio de Morais.

Poeta moderno, voltado também para a crítica, haja vista sua longa atividade jornalística, estreia em livro em 1924 com Luiz Gama e sua individualidade literária, num dos primeiros movimentos de resgate da obra de do autor das Trovas burlescas de Getulino, até então mais conhecido por sua atividade com “advogado dos escravos”, e por seus escritos jornalísticos e jurídicos. Com seu livro, Guedes traz a público a faceta poética e satírica do primeiro autor negro brasileiro que explicita sua ancestralidade e pertencimento ao se intitular, ainda em 1859, como “Orfeu de Carapinha”.

Como literato, logrou diversas publicações na imprensa, posteriormente lançadas em livro, umas pela Editora Cruzeiro do Sul, outras com recursos próprios. Fez incursões pela prosa e dramaturgia, mas exercitou predominantemente a poesia. Há fortes indícios, ainda não confirmados, de que seja o autor do romance-folhetim A boa Severina, publicado no Getulino, entre 1923 e 1924, sob o pseudônimo de José de Nazareth. Dentre os autores afro-brasileiros de seu tempo, é seguramente o que mais trouxe a público seus escritos.

Faleceu em São Paulo (capital), a 4 de março de 1951.

extraído de literafro: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autores/642-lino-guedes

Receita: Virado a Paulista

A receita desse episódio é simples e prática de se fazer. Eu gosto muito de Virado a Paulista e, Sendo Lino Guedes um autêntico paulistano, acho que nada melhor do que esse prato maravilhoso pra representar esse episódio hein?

Ingredientes

3 xícaras de chá de feijão carioca cozido
50g de bacon picado
1 cebola picada em pedaços grandes
1 dente de alho picado
Polpa de 1 tomate picado
1/2 xícara de chá de farinha de mandioca
1/2 xícara de chá de farinha de milho
Sal e pimenta do reino a gosto
Azeite

Modo de preparo

Bata metade do feijão no liquidificador e junte com a outra metade e reserve. Refogue a cebola, o bacon, e o alho até amolecer. Junte o tomate e refogue mais um pouco. Acrescente o feijão e refogue até incorporar todos os temperos. Adicione aos poucos a farinha de mandioca e milho mexendo até dar o ponto desejado. Sirva com ovos fritos, banana à milanesa, arroz branco e bistecas suínas grelhadas.

Bônus: Bauru

Como fiquei muito tempo sem dar as caras, vou trazer pra vocês outra receita maneira! Já ouviram falar do lanche típico paulista, o Bauru? É super fácil de fazer, acompanha comigo.

Sanduíche bauru

Ingredientes

pão francês
fatias de rosbife
fatias de queijo prato
picles

Modo de Preparo

Corte o pão francês ao meio. Ponha duas ou três fatias de rosbife e uma fatia pequena e fina de picles de pepino. Em uma frigideira antiaderente, coloque uma camada fina de água no fundo da panela. Leve ao fogo até a água ferver. Ponha duas ou três fatias finas de queijo prato na água, espere dois ou três segundos e o queijo começa a derreter. Coloque o queijo no sanduíche e sirva imediatamente.

Segunda Leitura

Pra celebrar nossa brasilidade, dessa vez, farei mais três leituras, pois gostei muito da obra do nosso querido Lino Guedes e espero que vocês gostem tanto quanto eu.

DEDICATÓRIA

Oh, negrada distorcida!
que não quer não outra vida
Melhor que esta de chalaça;

Pra você, negrada boa,
que chamam de gente à-toa,
alinhavei tudo isto.

O que aqui está escrito
Não conseguirá saber
porque ninguém sabe ler…
Isto muito desconsola,
Oh, getulina pachola,
que transforma o velho Piques
na estranha zona dos “chies”

dos truco-fechas, dos bambas
e dos sarados nos sambas.
Para você, oh negrada,
Carro de preso não é nada,
Nem assusta a Resistência!
Zé-povinho sem tenência;
toma, gente do barulho,

este livrinho — um entulho
à sua malemolência,
o qual falará da dor
desta infeliz gente negra,
gente daqui da pontinha,
desgraçada gente minha,
a gente do meu amor!

NOVO RUMO!

“Negro preto cor da noite”,
nunca te esqueças do açoite
Que cruciou tua raça.
Em nome dela somente
Faze com que nossa gente
um dia gente se faça!

Negro preto, negro preto,
sê tu um homem direito
como um cordel posto a prumo!
É só do teu proceder
Que, por certo, há de nascer
a estrela do novo rumo!

URUCUNGO DE PAI JOÃO

Pai João, urubuzado,
Lá no fundo da tapera,
Vive soturno, o coitado,
Pai João, por quem espera?

Pai João, por quem suspira?
Por quem sofre, Pai João?
Por quem dedilha essa lira,
Lira de dor e aflição?

Urucungo companheiro
Do velho negro Pai João,
Que te diz teu companheiro,
Amigo da solidão?

“Urucungo companheiro,
Amigo de Pai João,
Quando diz que “sim” é sim,
Quando diz que “não” é não.

E o pobre do velho escravo,
Como se julga feliz,
Como ele se sente um bravo,
Quando o urucungo lhe diz:

“Preto do Congo, trazido
Lá do africano sertão,
Quando diz que “sim” é sim
Quando diz que “não” é não.

Mas quando Pai João pergunta
Quando virá seu amor,
Quando ele verá defunta
A visão da sua dor;

O velho urucungo estala,
Estica a corda e delira,
Quer mesmo falar, não fala,
Em vez de dizer, suspira;

“Urucungo nada sabe.
Pois mulher e coração,
Se dizem que “não” é sim,
Se dizem que “sim” é não. . .

Encerramento

E aí pessoal, o que acharam desse episódio? Falar do Brasil, pra nós brasileiros, é uma tarefa difícil, uma vez que temos tantas escolhas e tanta coisa original, que o medo de ficar repetitivo pode ser uma trava.

Tentei encontrar um poeta que gosto e que achei que vocês vão gostar também, além disso, foi um episódio pra compensar toda essa ausência que deixei aqui no Podcast. Novamente, peço perdão a vocês por estar tão distante, mas é como eu já disse, a vida pessoal, estudantil e corporativa tem me sugado bastante.

Espero não demorar tanto pro próximo episódio! Vejo vocês em breve, leiam sempre e fiquem com Deus!

Fontes de Pesquisa para este episódio

Passei Web

Literafro

Toda Matéria

Guia da Semana

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